Uma proposta do economista André Lara Resende para reformular a dinâmica entre as políticas fiscal e monetária do país, com o objetivo de reduzir a taxa Selic, passou a circular entre integrantes do governo federal, que avaliam apresentá-la ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A movimentação, ainda em estágio inicial de avaliação, já é suficiente para elevar a apreensão em parcelas do mercado financeiro.
Lara Resende, que integrou a equipe responsável pela concepção do Plano Real, sustenta há anos uma tese heterodoxa: o verdadeiro problema fiscal do Brasil não reside no crescimento do gasto primário, mas no custo dos juros. Segundo essa visão, uma Selic elevada retroalimenta o próprio desequilíbrio que se pretende corrigir, ao fazer os encargos da dívida pública crescerem em velocidade superior à capacidade de geração de riqueza da economia. O economista retomou a argumentação em artigo publicado no fim de setembro.
O contexto em que a discussão emerge é sensível. A dívida bruta do setor público atingiu 82,9% do PIB, o nível mais elevado desde 2021, e economistas de diferentes correntes já cobram do próximo governo uma agenda fiscal com credibilidade. Aliados do presidente chegaram a defender a antecipação da divulgação da equipe econômica para o quarto mandato como forma de enviar sinais mais concretos ao mercado e de atenuar a pressão sobre o câmbio observada após o resultado do segundo turno das eleições.
Conforme informou o Valor Econômico, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, chegou a elogiar publicamente as ideias de Lara Resende. O economista, por sua vez, sustenta que o Banco Central, ao manter os juros em patamar elevado, agrava o próprio desequilíbrio fiscal que a autoridade monetária afirma combater.
A repercussão da proposta ocorre num ambiente em que qualquer sinalização de interferência na condução da política monetária tende a ser recebida com cautela pelos agentes financeiros. O mercado monitora de perto os desdobramentos do debate, dada a sensibilidade de temas como trajetória da dívida, credibilidade fiscal e nível da taxa básica de juros para a precificação de ativos e para o comportamento do câmbio.
Editorial BolsaNews





