O debate sobre endividamento no Brasil tem se concentrado nas contas públicas, mas um segundo desequilíbrio cresce em paralelo e sem a mesma atenção: o passivo das famílias junto ao sistema financeiro. O saldo de empréstimos contratados por pessoas físicas saltou 90,2% em cinco anos, passando de R$ 2,44 trilhões em julho de 2021 para R$ 4,64 trilhões em julho deste ano, ritmo superior ao registrado pela própria dívida bruta do governo central no mesmo intervalo, que avançou cerca de 61%.

A velocidade de expansão chama atenção inclusive quando comparada à evolução da renda. Segundo o Estadão Economia, a massa de rendimentos efetivamente recebida pelos trabalhadores cresceu no período, mas em ritmo inferior ao avanço do estoque de dívida das famílias. O IPCA acumulou alta de 31,45% no intervalo de cinco anos analisado, o que indica que o endividamento cresce muito acima da inflação.

Parte relevante desse movimento é atribuída ao próprio efeito dos encargos financeiros sobre o saldo devedor. Os juros médios cobrados de pessoas físicas estão em 37,4% ao ano, segundo dados do Banco Central. No segmento de crédito livre, onde as condições são negociadas diretamente entre instituições e tomadores sem regulação de taxas pelo governo, os encargos chegam a 60% ao ano. No crédito direcionado, cujas taxas são reguladas e frequentemente subsidiadas, a média não ultrapassa 11,5% ao ano, patamar significativamente abaixo da Selic.

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Essa dualidade no mercado de crédito é apontada como uma das principais fontes de ineficiência na transmissão da política monetária. Enquanto o Banco Central eleva a taxa básica para conter a inflação, o crédito subsidiado segue expandindo a demanda por um canal paralelo, reduzindo o impacto esperado do aperto monetário sobre a atividade econômica. O resultado prático, segundo o Estadão Economia, é que o BC precisa manter os juros em patamares mais elevados do que seria necessário em um ambiente creditício menos fragmentado.

O crescimento acelerado do endividamento das famílias, combinado com encargos elevados no crédito livre, tende a comprimir a capacidade de consumo no médio prazo e a elevar a inadimplência em cenários de desaceleração econômica. Analistas que monitoram o setor financeiro avaliam que a gestão da política de crédito, em particular a calibragem do crédito direcionado, deveria integrar o conjunto de instrumentos disponíveis para o controle inflacionário, ao lado da taxa Selic.

Editorial BolsaNews

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