A Organização Mundial do Comércio (OMC) colocou em números o risco de sua própria paralisia regulatória. O World Trade Report 2026, divulgado nesta terça-feira, projeta que, na ausência de uma reforma abrangente das regras da entidade, o Produto Interno Bruto global pode recuar cerca de 5% e as exportações mundiais podem despencar quase 20% até o ano de 2050, em comparação com um cenário de modernização bem-sucedida.

O relatório, publicação anual de maior peso analítico da organização, é divulgado em momento de crescente pressão sobre o sistema multilateral de comércio. Segundo a Folha Mercado, a entidade avalia que a globalização atravessa hoje o conjunto de desafios mais severo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, impulsionado pela escalada de barreiras tarifárias e pelo avanço de políticas de subsídios estatais em diversas economias.

Um dos indicadores citados no documento ilustra a velocidade com que o princípio da nação mais favorecida (NMF) vem perdendo terreno. Esse mecanismo, pilar central do sistema multilateral, determina que qualquer vantagem comercial concedida por um país a um parceiro deve ser estendida automaticamente a todos os demais membros. Há quatro anos, 80% do comércio global seguia essa regra. O percentual recuou para 72% no período mais recente, sinalizando uma aceleração da fragmentação das relações comerciais em blocos e arranjos bilaterais.

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A liderança da OMC vem defendendo há anos a atualização de um arcabouço regulatório construído há mais de três décadas, em um contexto econômico radicalmente diferente do atual, anterior à consolidação do comércio digital e à nova rodada de disputas geopolíticas entre potências. O relatório deste ano representa uma mudança de abordagem: em vez de apenas argumentar pelos benefícios de reformar, a organização passa a quantificar o custo de não agir.

Sem fortalecimento institucional, projeta o documento, a tendência atual de elevação descoordenada de barreiras alfandegárias tende a se intensificar, aprofundando a divisão do comércio mundial em blocos regionais ou alinhamentos geopolíticos, com impacto direto sobre cadeias produtivas globais, preços ao consumidor e crescimento econômico de longo prazo. Para economias emergentes com alta dependência de exportações, como o Brasil, o cenário de fragmentação representa risco adicional de perda de acesso a mercados e de deterioração nos termos de troca.

Editorial BolsaNews

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