O agravamento do El Niño, previsto para ser o episódio mais severo em mais de cem anos, começa a reconfigurar as projeções de inflação no Brasil e em outros países expostos ao fenômeno climático. Os efeitos sobre hortaliças, grãos, carnes e demais produtos agropecuários devem se intensificar ao longo do quarto trimestre, período em que inundações e estiagens tendem a causar maiores perturbações sobre a oferta agrícola.
O banco Barclays já incorporou 0,20 ponto percentual à sua projeção do IPCA para 2026 em função do aumento esperado nos preços de alimentos. O economista Roberto Secemski, responsável pela análise, alertou, porém, que esse número pode dobrar rapidamente caso a intensidade dos eventos climáticos e as perturbações na cadeia de oferta de alimentos sejam mais agudas do que o cenário-base considera.
Além do componente climático, o cenário é agravado pelo recrudescimento dos conflitos militares no Irã e na Ucrânia. As tensões nessas regiões têm comprometido o fornecimento de insumos agrícolas, com destaque para fertilizantes, o que pode elevar os custos de produção no campo e ampliar a pressão sobre os preços ao consumidor para além do que o mercado hoje antecipa.
No curto prazo, o componente de alimentação no domicílio do IPCA-15 de setembro, após dois meses consecutivos de deflação próxima a 1%, deve registrar leve alta ou, ao menos, estabilidade. O movimento ainda não reflete o pico da pressão esperada, que tende a se manifestar com maior clareza nas leituras do quarto trimestre, quando o impacto climático sobre a produção agrícola costuma ser mais visível nos índices mensais.
Segundo o Estadão Economia, analistas avaliam que o mercado pode estar subestimando os danos potenciais do El Niño sobre a inflação brasileira. O cenário exige monitoramento contínuo, uma vez que qualquer escalada nos eventos climáticos ou nos conflitos geopolíticos pode tornar insuficientes as revisões já realizadas por bancos e consultorias nas últimas semanas.
Editorial BolsaNews





