As entidades fechadas de previdência complementar brasileiras percorreram um longo caminho de desinvestimento em renda variável na última década. A fatia destinada a ações em suas carteiras recuou de 34% em 2013 para apenas 4,7% em dezembro de 2025, uma reconfiguração profunda que reflete o ambiente de juros elevados e a volatilidade dos mercados ao longo do período. Os dados integram o Raio-X de Investimentos das EFPCs 2026, elaborado pela Abrapp em parceria com a Itajubá Investimentos e apresentado nesta quarta-feira (21) durante congresso em São Paulo.
O levantamento abrange entidades que somam R$ 461 bilhões em ativos, o equivalente a cerca de um terço do sistema de previdência complementar fechada do país. A fotografia de dezembro de 2025 mostra a renda fixa ocupando 86% das carteiras, com predominância de títulos públicos, em especial as NTN-Bs, papéis soberanos atrelados à inflação que oferecem retornos reais em ambiente de Selic elevada. Dentro da renda variável remanescente, houve crescimento relevante da gestão passiva e indexada, cuja participação mais que dobrou em relação a períodos anteriores.
Apesar do movimento de contração recente, as entidades participantes indicam intenção de reverter parte dessa tendência no horizonte de médio prazo. A disposição para ampliar a exposição em ações é mais expressiva quando o horizonte considerado é de três anos, com variação positiva de 26 pontos percentuais, do que quando restrita ao próximo ano. O dado sugere que os gestores não descartam a classe de ativos, mas condicionam o aumento a um cenário macroeconômico mais favorável.
Mesmo entre as intenções de diversificação, o mercado acionário doméstico não ocupa a primeira posição. Segundo o Valor Econômico, os investimentos no exterior lideram as preferências de aumento de alocação entre os fundos participantes da pesquisa, sinalizando que a busca por descorrelação e diversificação geográfica ganhou espaço relevante na estratégia das entidades. O Ibovespa pode ser impactado por eventual realocação futura, mas o fluxo potencial compete com ativos internacionais em um cenário de maior abertura das carteiras.
O movimento de concentração em renda fixa observado desde 2013 acompanha a trajetória da taxa Selic, que ofereceu retornos reais atrativos ao longo de grande parte do período, reduzindo o apelo relativo da renda variável para gestores com passivos atuariais de longo prazo e obrigações definidas. A pesquisa compara dados de dezembro de 2025 com os registros de 2013 e 2023, oferecendo uma visão longitudinal das transformações estruturais nas estratégias de alocação do segmento.
O levantamento reforça o peso que as condições macroeconômicas exercem sobre as decisões de alocação de grandes investidores institucionais, cujo comportamento influencia diretamente a liquidez e o nível de demanda por diferentes classes de ativos no mercado financeiro brasileiro. Analistas monitoram se uma eventual convergência da Selic para patamares mais moderados nos próximos anos poderia acelerar o processo de reequilíbrio das carteiras em direção à renda variável.
Editorial BolsaNews





